segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Artigo indefinido


Aqui nas proximidades de onde me encontro,
dei com um campo aberto coberto por vida.
Parado, perplexo como com tudo que a natureza
guarda, dado um certo desprendimento que lhe é vital,
fiquei a observar a forma como cada coisa tão particular
e solitária completava aquele cenário cuidadosamente ocasional.

Uma árvore, um mato, um ajuntamento de pedras, um campo.

Tudo tão significativo e indefinido ao mesmo tempo, que pensara
Comigo se tudo não passara de oscilações da minha consciência,
Efeito de noites mal dormidas.

Como que para me provocar os sentidos, chamando-me para
a impossibilidade do agravamento, esfreguei novamente os olhos, estava lá.

Uma árvore, um mato, um ajuntamento de pedras, no campo, um homem.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Perturbação


Dormir, para mim, é essa consolação à alma.
Uma espécie de carinho.
Prendo-me à cama, luto contra meus pensamentos,
 forço uma camisa de contenção, cubro-me de escuro.
Tudo. Numa tentativa acirrada de apenas tirar-me de mim.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Scriptor

                                                                                   Fotografia: Notre Dame, Paris                              

Não escrevo mais porque me cansa.
Cada fragmento de texto meu é como um parto,
o qual prefiro evitar.

Mexe-se lá dentro, sofre-se a dor de conceber um filho, sentimentos.
Para depois de o agonizar sozinho consigo, dar a luz a uma monstruosidade,
uma teratogenia.

Algo que nunca se quis,
nunca se quisera ter.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Voc'ação'


Escrevo porque não suporto a desordem de viver,
a falta de ordem na vida que só encontro na conjugação
das palavras.

Amor e outras tragédias


Aprendi a me desprender de tudo que não me pertence, das coisas que um dia quis e nunca pudera ter,
como são os sonhos inalcançáveis.
Somente agora deixei de sonhar com castelos, espaço-naves e com amores perfeitos. Passara toda minha fantástica infância a sonhar com essas coisas tolas. Castelos, estrelas e espaço-naves.
Então a gente vai crescendo e modificando alguns sonhos,
para só então perceber que ser criança é, na boa parte das vezes, mais saudável.
Se amores perfeitos são perfeitos, ao menos castelos, estrelas e espaço-naves têm a razão de existir.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Uma vez, Era.



Tenho pressa em escrever. Talvez por uma necessidade frenética de ser ouvido ou por não ter a quem escute. A verdade é que hoje, acordei com uma dor amarga no peito, uma que já sinto há dias e que já me tomou todo o corpo. Ouvi dizer que essa dor, segundo pessoas vividas e experientes na vida, passa, que precisamos apenas dar tempo às nossas ansiedades, velando pelo momento propício de acontecê-lo. O que me poderia servir de consolo, coloca-me ainda mais em brios. Sim, sendo o homem um ser não universal, por que haveria de ser a dor universalizável? da qual falo, é uma do tipo difícil de suportar, que em vãs mentes que não a minha, abriria concorrência à morte para a beleza de viver. Consciente da tamanha complexidade do que sinto, suponha que tudo me seria mais intenso, as alegrias, as lembranças, os sonhos, os medos, as dores, até o sofrer. Ainda pensará, talvez, o leitor que seja desleixo meu, charme da idade ou mera vontade de sofrer. Digo que não. Confesso entregar a mais singela de minhas poucas alegrias para não sofrer assim. Minha dor, que não é de agora, possui em sua existência momentânea toda a eternidade que na vida há. É, antes tudo, a dor de saber que agora vivo e tenho o que, por não poder ou não dever, não terei nunca mais.

Toda dor é legítima.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Lembrança do passado

Quem irá dizer que o amanhã será seguro?
Quem, se não eu, darei conta de nós?
Ninguém.
Ouvi dizer que você anda por ai feliz, que os lugares tão seus e
meus se tornaram normais.
 Eu, que não consigo passar por nenhum deles
sem sentir sua falta, já não arrisco mais sofrer.
É como se tivesse que nascer de novo, pra então poder,
meio que dificilmente, tirar essa parte sua de mim.
Eu quero dizer que tentei, apenas, dei tudo de mim.
Que pena que não tinha mais do que isso pra dar. Que pena.
Só quero que saiba, até esse coração que era tão seu desistiu de bater.